O céu sem fim

Era uma vez um menino de oito anos que saiu de Belo Horizonte com sua família para morar em uma cidade dos Gerais, assim como é chamado o norte do estado de Minas Gerais. Eram meados dos anos 50. Não havia televisão, computador, jogos eletrônicos, internet. Os jornais da capital chegavam no dia seguinte, depois de publicados. O rádio, ao sabor da inconstância das ondas curtas que sumiam e reapareciam, era o meio de contato mais rápido com o mundo.

Naquela época também não havia luz de mercúrio, nem painéis de publicidade iluminando a noite. A cidade era pequena, as ruas eram palidamente clareadas por lâmpadas incandescentes, cujos bocais eram encimados por uma espécie de disco que as protegia da chuva e, ao mesmo tempo, impediam que a iluminação fosse dirigida para cima.

Jantava-se entre seis e meia e sete horas da noite e, depois, a família sentava-se na porta da casa ou passava um tempo caminhando.

O clima, quente e seco, propiciava noites com céu cristalino, limpo de poeira e inteiramente coberto de estrelas. Isso logo chamou a atenção daquele menino, que aos poucos foi tomado pela beleza, mistério e imensidão daquele céu.

A família notara seu interesse e uma tia acabou por presentear-lhe com o livro Os Mistérios do Firmamento. O menino pode, então, ver o céu além dos seus olhos. Lua, estrelas, planetas, nebulosas, galáxias, e todo um Universo começava a ser compreendido. E o menino descobriu maravilhas!

As estrelas, em seu passeio anual pela esfera celeste, nascem cada dia quatro minutos mais cedo que o dia anterior. Por causa disso, o céu se modifica lentamente ao longo do ano, produzindo uma mudança de cenário que não o deixa monótono. Além das estrelas mais brilhantes, as grandes atrações são as constelações, que podem ser identificadas a olho nu. Com as histórias de suas origens na mitologia grega, elas abrem um outro universo para nós, aquele das crenças de nossos antepassados distantes.

No verão, as constelações que se destacam são: Órion (com as Três Marias), Touro (com seu chifre bem nítido perto do Órion), Gêmeos e Cão Maior (com Sirius, a estrela mais brilhante do céu). No outono, Cruzeiro do Sul, Centauro, Leão (que pode ser identificado por sua cabeça na forma de um gancho) e Virgem. São as grandes atrações do céu! No inverno, as mais impressionantes são Escorpião, Sagitário e Hércules. Finalmente, na primavera, Lira, Cisne e Águia tomam conta da paisagem.

O grande espetáculo acontece em julho-agosto, quando a Via Láctea, disco da nossa galáxia, passa quase no zênite do sertão, o ponto mais elevado da abóbada celeste. Longe da iluminação artificial, podemos ver o chão iluminado pelas estrelas desse caminho celestial. Em um número tão grande que é impossível separar umas das outras, as estrelas formam nuvens brilhantes, cortadas por regiões escuras, de formas as mais variadas, oferecendo uma visão grandiosa de uma pequena parte de nossa casa no Universo.

Foto: Matheus Loureiro

Quando a Lua está na sua fase minguante ou início da crescente, alguns objetos menos brilhantes podem ser distinguidos pelos nossos olhos: em Órion, fica a chamada Grande Nebulosa, formando a ponta da espada do caçador. Entre o Touro e Gêmeos, as Plêiades (aglomerado de estrelas que, à primeira vista parece uma bola de algodão) são bastante características nas noites de verão. Há também as galáxias vizinhas da nossa – a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães – perto do polo Sul celeste, visíveis na primavera. As galáxias de Andrômeda e a do Triângulo, manchas tênues que escondem outros pequenos universos semelhantes ao nosso, podem ser vistas em outubro-novembro.

Sempre presentes ao longo de quase todo o ano, os aglomerados de estrelas, como caixas de diamantes brilhando intensamente, são talvez os objetos mais belos e diversificados que podemos admirar. Em geral eles se encontram próximo às chamadas “nebulosas”, regiões de gás com formas delicadas, iluminadas pelas estrelas desses aglomerados, e berçário delas.

Já a Lua, com sua inconstância quase mensal, oferece sempre algo mais a ser descoberto com um binóculo ou telescópio, mesmo pequeno. Vales, mares de lava resfriada durante bilhões de anos, montanhas, falhas geológicas e crateras sempre têm algum aspecto novo para nos mostrar. No sertão, a atmosfera limpa e a escuridão do céu permitem contrastes visuais impressionantes.

Não há, oh, gente, oh não, luar como este do Sertão.

O que dizer, então, dos planetas? Embora melhor vistos com telescópios, que desvendam mais detalhes, com binóculos podemos ver muitas coisas interessantes. Mirando o disco de Júpiter, é possível observar o séquito dos seus quatro maiores satélites, ou luas, dançando ao redor do planeta, ora visíveis, ora escondidos atrás dele. Com telescópio é possível identificar sua grande mancha vermelha, maior que a Terra, algumas vezes mais rosada, outras vezes mais vermelha, sempre diferente.

Saturno é um espetáculo a parte por causa de seus anéis. Mesmo sendo possível enxerga-los somente com telescópios, podemos acompanhar seu deslocamento no céu a olho nu. Marte, quando próximo da Terra, deixa ver suas calotas polares brancas e algumas manchas em sua superfície; às vezes, tempestades tornam o disco do planeta pálido. Vênus, ora estrela matutina, ora vespertina, é um farol no céu. Com um binóculo, já é possível ver que, tal como a Lua, o planeta apresenta fases.

No sertão, além da ausência de luz e da claridade do céu, a geografia é amiga de quem olha para o alto e busca admirar as estrelas. Os chapadões, planos, ampliam o horizonte e parecem trazer o céu para mais perto de nossos olhos.

Tal como o menino de antes – hoje com seus setenta anos e astrônomo profissional –, é preciso ver o céu com os olhos da mente e do coração. A exata dimensão do Universo que nos cerca ainda é carregada de mistérios e de perguntas, que os cientistas e nós continuamos a fazer.


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Imagem em destaque: Matheus Loureiro


*Rodrigo Dias Társia é astrofísico e professor aposentado do Departamento de Física do Instituto de Ciências Exatas da UFMG. É autor de livros de Astronomia e Física.

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