Leia o Editorial da revista Manzuá 3

Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?” (Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas)

A Manzuá chega à sua 3ª edição a partir de muitas mãos. Seguindo o desejo de continuar abrindo processos e ampliando nossos olhares para a realidade do Cerrado e de seus povos no território do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu, a revista foi produzida em meio a um turbilhão de acontecimentos que marcam definitivamente a vida de todas e todos nós.

Joel Sirqueira, coordenador de trabalhos com extrativismo e agricultura, diante do estoque de polpas de frutos que deixou de ser comercializado logo que as escolas foram fechadas em toda a região, observa como “um ser minúsculo, invisível até para alguns microscópios, gerou algo tão grande, mundial”. A pandemia de Covid-19 mudou nossa maneira de conviver, trabalhar, construir e compreender o valor da vida.

Como ponto de partida, era preciso escutar o mundo e o próprio coração, lançar na mesa as perguntas que tínhamos, até nossos medos e incertezas, buscando encontrar os pontos de luz que nos ajudam a olhar com afeição para a realidade, enfrentar as dificuldades e buscar, com os recursos que temos, seguir adiante mais conscientes da nossa casa comum. Assim, fomos seguindo o rastro de pessoas e iniciativas que têm, na experiência comunitária, na relação com a natureza, no desejo da solidariedade, na generosidade e na partilha, o brilho dos olhos.

E foi olhando a natureza pelos olhos de Sérgio, Jacinto, Sebastião, João e Joselina que aprendemos a esperar.

Foi ouvindo as profecias do Tempo do Quetaí lembradas por Elomar, Jau e José que vimos o mundo dar voltas e se- guir seu curso.

Foi confiando nos versos de dona Lili, Lita e Levina que lembramos de usar a máscara e lavar as mãos.

Foi reconhecendo na força das mulheres do Gerais, do Urucuia e da Estiva a insistência da permanência e do trabalho que aprendemos a resistir.

Foi no reconhecimento da riqueza da biodiversidade e do trabalho de homens e mulheres que ajudam a polinizar o sertão que vimos que a vida pode se renovar todos os dias.

Foi vendo a luta dos Xakriabá e as imagens de Edgar que aprendemos que o tempo é feito da história que recebemos mas que também ajudamos a construir coletivamente.

Foi vendo os agricultores e coletores buscarem no chão os alimentos que geram renda e nutrem pessoas que aprendemos a generosidade de cuidar dos frutos que virão.

Foi na memória, na poesia, na dança e na imagem que revela o invisível do mundo que reconhecemos que a vida não termina no nada e que é nosso dever protegê-la.

Foi no mutirão, no associativismo e nas redes de cooperação mais solidárias que aprendemos que só vamos sair dessa melhores do que antes se seguirmos caminhando de mãos dadas.

As editoras

Damiana Campos, Marcela Bertelli e Carol Abreu

O que você achou dessa matéria?
Conta pra gente.

Todos os campos devem ser preenchidos. Seu email não será publicado.